{"id":6859,"date":"2020-09-20T01:52:08","date_gmt":"2020-09-20T01:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/factor-h.org\/?p=6859"},"modified":"2021-09-21T14:49:25","modified_gmt":"2021-09-21T14:49:25","slug":"the-story-of-celia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/the-story-of-celia","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria da C\u00e9lia"},"content":{"rendered":"<p>por Tatiana Hinojosa<\/p>\n\n\n\n<p>Traduzido por Amanda Kauffman<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em Meus Sonhos \u2013 A Hist\u00f3ria de C\u00e9lia<\/strong><\/p>\n<p><em>Um suspiro aprisionado me escapa \u00e0 noite,<\/em><\/p>\n<p><em>mesmo que pare\u00e7a um jogo, roubaria<\/em><\/p>\n<p><em>ao coro de uma noite escura<\/em><\/p>\n<p><em>muitos tesouros para encher seu quarto quente com fantasias,<\/em><\/p>\n<p><em>brincaria eternamente com sua luz suavemente perfumada,<\/em><\/p>\n<p><em>Emaranharia meus anseios nas janelas musicais,<\/em><\/p>\n<p><em>enquanto o fr\u00e1gil encanto de uma borboleta prateada<\/em><\/p>\n<p><em>adora-a em sonho,<\/em><\/p>\n<p><em>Eu sigo seus passos e espero por ela at\u00e9 o final da luta<\/em><\/p>\n<p><em>Eu me seguro com esperan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p>A brisa fresca e impetuosa envolve nossa enorme casa de arquitetura vernacular, as mangueiras estremecem com muita for\u00e7a e o ar entra pelas frestas rapidamente como se quisesse escapar do tempo; Agora, todos assistimos \u00e0 novela, e n\u00e3o perco de vista a express\u00e3o de minha m\u00e3e e as emo\u00e7\u00f5es que a tela provoca; \u00e0s vezes troco olhares com minha av\u00f3 quando a trama se torna intensa, sorrio diante da malandragem de minha irm\u00e3zinha, que tenta encontrar um c\u00famplice e formar um equil\u00edbrio tranquilo conosco. Eu a conhe\u00e7o, e sei que s\u00e3o formas de evitar o tempo de estudo, por isso muitas vezes brigamos, at\u00e9 por causa de algumas regras que ela propositalmente ignora, resguardada em sua infantilidade.<\/p>\n<p>A noite come\u00e7a a se insinuar entre as vidra\u00e7as, nem me preocupo mais com quantos colombianos sentem o mesmo p\u00e2nico que me afligiu nestes dias por causa da pandemia. Levanto-me furtivamente e chego ao quarto que divido com minha m\u00e3e, decido me deitar, e olho para as paredes suas fotos emolduradas exibindo um sorriso galanteador e um olhar que irradiava sublimes mensagens de fidelidade, quando eu ainda nem sabia que a vida a estaria deixando com esta doen\u00e7a, a doen\u00e7a de Huntington.<\/p>\n<p>Quantos sonhos da minha m\u00e3e naquela \u00e9poca\u2026!<\/p>\n<p>Ela era aluna da Universidade de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas, mas n\u00e3o conseguiu terminar o curso porque se apaixonou por meu pai, que lhe ofereceu amor sincero na \u00e9poca. Acho que poder\u00edamos ter sido uma fam\u00edlia feliz, mesmo saindo para tomar sorvete, visit\u00e1vamos a vov\u00f3, e eu tinha muitos amigos, mas esse n\u00e3o era o mundo em que ficar\u00edamos para sempre, meu av\u00f4 sofreu isso doen\u00e7a estranha, e como esse mal n\u00e3o pula gera\u00e7\u00f5es, agora assombra minha m\u00e3e. Isso mudou o relacionamento da minha fam\u00edlia, no final, a harmonia foi perdida desde a primeira vez que a atitude da minha m\u00e3e explodiu em euforia, sem motivo aparente; ent\u00e3o meu pai nos abandonou, mas minha av\u00f3 nos ofereceu um lugar em sua casa para nos ajudar provisoriamente.<\/p>\n<p>Lembro-me de quando, ainda menina, com apenas dez anos de idade, minha m\u00e3e come\u00e7ou a apresentar os primeiros sintomas, apareceu de repente um tique nervoso, um gesto nervoso, tamb\u00e9m, movimentos suaves dos ombros e p\u00e9s, que gradualmente progrediram para se tornarem mais grave e incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Emociono-me ao recordar o nascimento de Maria Jos\u00e9, de imediato, ela tornou-se o compromisso que me impus, porque sendo t\u00e3o pequena preencheu os nossos dias solit\u00e1rios. A vida n\u00e3o tem sido f\u00e1cil para ningu\u00e9m da minha fam\u00edlia, isso pode ser visto quando comparo o estilo que os amigos da minha idade projetam com o nosso, tem sido um pouco mais dif\u00edcil, ent\u00e3o devo exigir algo mais, por isso tenho trabalhado em f\u00e1brica de frap\u00eas, na venda de empanadas e como treinador de patina\u00e7\u00e3o. Isso me encoraja a pensar que existe um futuro pr\u00f3spero e que pode oferecer oportunidades para minhas irm\u00e3s e, claro, para mim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A hora de sair se aproxima, ent\u00e3o, procuro nas gavetas do arm\u00e1rio um jeans claro, e uma blusa verde-ma\u00e7\u00e3, coloco-os sobre a cama, vejo que minha m\u00e3e anda apressada, distingo seus movimentos r\u00e1pidos em a dist\u00e2ncia, e confio-a \u00e0 minha av\u00f3. Depois de um banho que me renova o \u00e2nimo, dirijo meus passos pela rua que me leva ao local onde trabalho. \u00c0s vezes os assobios ardentes de algum admirador oculto afugentam o sil\u00eancio, ando distra\u00eddo, com a certeza de que n\u00e3o \u00e9 hora de amar. Chego ao ponto de venda, em frente \u00e0 avenida que surge diante dos meus olhos, t\u00e3o moderna\u2026 Mais como um desenho criado por duendes m\u00e1gicos, de onde posso observar as duas dire\u00e7\u00f5es e ver todos os ve\u00edculos da cidade. Limpo a vitrine e arrumo a comida diligentemente, enquanto sorrio para os fregueses regulares do com\u00e9rcio de frituras onde agora me encontro. Chegam algumas senhoras simp\u00e1ticas, que se recusam a voltar ao t\u00e9dio de suas casas e ficam um pouco nas cadeiras brancas dispostas para que a clientela se acomode e se sinta bem atendida.<\/p>\n<p>Orgulho-me de ser uma boa companhia, embora pare\u00e7a mais jovem do que realmente sou, talvez seja pela minha figura esbelta ou pelos meus carac\u00f3is escuros que chegam at\u00e9 aos ombros, que real\u00e7am aquela candura que revela a pureza que se encontra na alma de pessoas piedosas.<\/p>\n<p>Terminei quase \u00e0s oito da noite, vendi tudo o que levei; \u00e9 engra\u00e7ado, mas agora que as pessoas est\u00e3o presas em suas casas, os produtos acabam rapidinho, deve ser porque os restaurantes de luxo do centro da cidade fecham cedo e s\u00f3 funcionam delivery. Voltando para casa, encontro Maria Jos\u00e9 e os demais parentes que moram na casa da vov\u00f3, reunidos em volta da mesa. Somos muitos, ent\u00e3o procuro colaborar com as despesas, assim como meus outros parentes.<\/p>\n<p>&quot;Ol\u00e1 m\u00e3e!&quot; Cumprimento quando a encontro acordada, ela sorri, e em seu gesto percebo sua alegria, pergunto se ela j\u00e1 vai dormir, e sem conseguir controlar seus movimentos, ela parece dizer sim, eu ajudo ela deita na cama que fica ao lado da minha.<\/p>\n<p>N\u00e3o era \u00e0 toa que minha m\u00e3e repetia, embora com dificuldade, que era hora de dormir, sa\u00eda em busca de minhas irm\u00e3s, pois era um saud\u00e1vel h\u00e1bito que j\u00e1 t\u00ednhamos, o de desejar-lhe boa noite, e s\u00f3 ent\u00e3o ela cairia em um sono profundo.<\/p>\n<p>Eu queria fazer algo para mudar nossas vidas, ter pelo menos um lugar para minhas duas irm\u00e3s e minha m\u00e3e, mas por onde come\u00e7ar, se me parecia como eu era a protagonista do livro O Perfume de Jean Baptiste? Todos me viam, mas era como se eu n\u00e3o existisse.<\/p>\n<p>N\u00e3o era segredo a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que viv\u00edamos e, embora fosse muito dif\u00edcil adiar meus objetivos, n\u00e3o podia abandonar minha irm\u00e3, que tinha apenas dez anos e s\u00f3 pensava em curtir a inf\u00e2ncia, ou minha m\u00e3e, que poderia n\u00e3o se defender sozinha, fazer meu caminho na cidade grande e colocar minha luta pessoal em primeiro lugar. Eu sou a irm\u00e3 mais velha, e com Maria Fernanda, minha irm\u00e3, seu \u00fanico apoio, seria ego\u00edsmo da minha parte afastar-me com indiferen\u00e7a, esquecendo-me do dever de filha.<\/p>\n<p>As ang\u00fastias e ansiedades de minha m\u00e3e se manifestavam constantemente, seus movimentos repetitivos a mantinham em uma magreza extrema, isso porque, \u00e0 noite enquanto ela dorme, ela n\u00e3o descansa, e durante o dia ela n\u00e3o tem um momento de imobilidade. Fazemos o poss\u00edvel para n\u00e3o incomodar os demais familiares que moram conosco, mas \u00e0s vezes essa responsabilidade se torna \u00e1rdua.<\/p>\n<p>Como fa\u00e7o para controlar os passos da minha m\u00e3e pela casa sem que ela se machuque? Estabelecemos um m\u00e9todo de irm\u00e3s que consiste em se revezarem para cuidar dela e para que n\u00e3o se tornem, de forma alguma, momentos inc\u00f4modos para os tios e primos.<\/p>\n<p>Tem gente obcecada por beleza, poder ou dinheiro, eu me contentaria em ler uma centena de livros, dos quais j\u00e1 carrego, uns cinquenta j\u00e1 finalizados, sou apaixonada por leitura e quero fazer faculdade para cursar direito, para fazer justi\u00e7a, principalmente em benef\u00edcio das fam\u00edlias dos pacientes de Huntington, pois, sabendo que h\u00e1 pessoas interessadas em nos ajudar, tenho certeza de que quanto maior a equipe, maior o progresso que a ci\u00eancia apresentar\u00e1. Hoje aproveitei a visita de um grande amigo para fazer umas liga\u00e7\u00f5es, ele me empresta o celular toda vez que vem, claro que est\u00e1 sempre dando o mesmo aviso.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o deixe cair, porque ent\u00e3o n\u00f3s dois estaremos na mesma situa\u00e7\u00e3o.\u201d ele me avisa.<\/p>\n<p>Gesticulo minha gratid\u00e3o e procuro um canto isolado onde possa ter intimidade suficiente para permitir um conforto fugaz a algumas necessidades emocionais.<\/p>\n<p>Quando entreguei o celular, minhas m\u00e3os tremiam, tinha recebido a not\u00edcia que fui admitido na faculdade de direito e que come\u00e7aria em agosto, teria que pegar alguns pap\u00e9is, e esperar um pouco. Pe\u00e7o a Deus que me ajude, que nada venha afugentar essa ilus\u00e3o, por\u00e9m, em meu ser, em algum momento vem o pessimismo, estou t\u00e3o acostumada com a tristeza, o medo e a indiferen\u00e7a, que acho estranho gozar, justamente agora, que o novo coronav\u00edrus tamb\u00e9m se espalhou pelo planeta.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o fa\u00e7o ideia do que ser\u00e1 amanh\u00e3, mas o que me conforta \u00e9 que a reuni\u00e3o familiar que tivemos na sala foi muito animada, minhas irm\u00e3s acreditam que devo continuar com minha aspira\u00e7\u00e3o de entrar na faculdade, de conhecer o mundo atrav\u00e9s do estudo; segundo a vis\u00e3o da minha amada m\u00e3e, ela precisa muito de mim, mas, eu n\u00e3o seria o mesmo se me faltasse em algum momento, \u00e9 muito importante n\u00f3s tr\u00eas sabermos que ela est\u00e1 a\u00ed, \u00e9 poss\u00edvel que a doen\u00e7a que hoje dobra a sa\u00fade dela, \u00e0s vezes, me causa medo, mas \u00e9 mais prov\u00e1vel que eu pense que um dia ela vai embora deste mundo. No meu choro est\u00e1 sempre pedindo a Deus que ela fique com a fam\u00edlia e comemora o dia da minha formatura como advogada para abra\u00e7\u00e1-la e brindarmos juntos por uma vida melhor.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>by Tatiana Hinojosa Translated by Amanda Kauffman In My Dreams \u2013 The Story of Celia An imprisoned sigh escapes me at night, even if it looks like a game, it would steal to the chorus of a dark evening many treasures to fill your warm room with fantasies, would play eternally with its softly perfumed [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":6854,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[84,64],"tags":[],"class_list":["post-6859","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultural-activities","category-advocacy"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6859\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6854"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/factor-h.org\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}